Nasce a Agricultura Nutricional

 Agricultura Nutricional 

Uma Nova Proposta

 

A ciência biológica contemporânea caracteriza-se pelo estudo de áreas do conhecimento de forma totalmente isoladas e estanques. Assim, o Nutricionista desconhece como os alimentos que utiliza no seu trabalho diário são produzidos e usa, ainda hoje, tabelas de composição de alimentos totalmente velhas e ultrapassadas, desconhecendo o fato essencial, para o exercício da sua profissão, de que a composição química dos alimentos é uma função direta da fertilidade do solo.

E, a fertilidade do solo, pode variar de acordo com a época do ano, local, pluviosidade, composição química desse próprio solo, relevo, clima e principalmente com a atividade microbiológica desse solo.

O tipo de manejo agrícola, convencional quimicalizado com ênfase no N-P-K  ou Biológico, Orgânico, Ecológico, etc.. que enfatizam todos os elementos da Tabela Periódica assim como a microbiologia do solo que hoje sabemos ser responsável pela presença de metabólitos secundários, que incluem exatamente os princípios ativos vegetais considerados  nutracêuticos e/ou medicinais, também influem diretamente na composição dos vegetais.

Os alimentos foram feitos para alimentar as pessoas e os animais, ou pelo menos deveriam ter sido. Entretanto, com o advento do chamado Agronegócio, os alimentos hoje não passam de commodities ou seja, de moeda de troca ou ativos, cujo principal objetivo é o de ser trocado por moeda corrente, ficando a Nutrição, diga-se de passagem, em segundo plano. Eu já tive a oportunidade de escrever sobre esse aspecto anteriormente ( 3 ). Recentemente, o Bushel do Milho ( uma medida volumétrica americana padrão usada há séculos ) foi reduzido das tradicionais 56 libras para apenas 54 libras porque fica cada vez mais difícil para o milho transgênico atingir o peso padrão em virtude da sua menor densidade ( 11 ).

A palavra “cultura” vem do latim cultura ou culturae, uma forma de colere, que significa cultivar o solo e suas criaturas, animais, plantas, fungos e bactérias. Hoje, na produção de alimentos, o termo “cultura” , de agri-cultura, foi substituído por “negócio”.

A cultura, entretanto, foi o que nos tornou seres humanos civilizados. Cultura significa a totalidade de tudo que nós, seres humanos, queremos passar de geração a geração em termos de linguagem, literatura, música, arte, conhecimento científico, crenças assim como a culinária e as práticas agrícolas sustentáveis. Por outro lado, o único objetivo do chamado Agronegócio é única e exclusivamente o lucro.

Hoje em dia não deve ser mais novidade para ninguém que o Agronegócio sequestrou a nossa civilização com todo um processo de produção de alimentos vazios e obesogênicos. Onde quer que você vá, poderá observar o que Manning chamou de Sociedade Obesogênica  ( 9 ) com pessoas de aspecto “extrusado”, resultado do consumo de alimentos de baixíssima qualidade nutricional.

 

O médico, da mesma maneira, pouca informação dispõe sobre como foram produzidos e quais nutrientes esses mesmos alimentos contém ou deveriam conter e desconhece que efeitos diretos e indiretos as substancias químicas, utilizadas nessas lavouras, teriam sobre seus pacientes. Hoje, igualmente, é reconhecido que alguns agrotóxicos usados na Agricultura são apontados como sendo a origem de inúmeras das chamadas doenças modernas. Também já tive oportunidade de escrever e de palestrar sobre isso ( 4, 5 ).

O conceito de dividir para governar ou dividir para reinar foi pela primeira vez usado pelo Imperador romano Cesar (divide et impera) e depois por diversos outros conquistadores como Napoleão e tem se mostrado bastante eficiente no que diz respeito ao controle de populações. O conceito refere-se a uma estratégia que tenta romper as estruturas de poder existentes e não deixar que grupos menores se agrupem.

É um conceito muito usado até hoje na política e tem sido esse conceito basilar que mantém as diversas áreas do conhecimento sem a devida comunicação entre si e de forma totalmente estanque.

Em todas as áreas da ciência, mas notadamente na Medicina, estimula-se o “Especialismo”, ou seja, sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos. O médico Dr. David Perlmutter, no seu excelente livro Amigos da Mente, afirma que “todo o campo da Medicina se caracteriza por disciplinas separadas, divididas por parte do corpo ou sistemas individuais” e ”é um ponto de vista completamente desconectado da ciência atual” ( 1 ).

Esse aspecto fragmentado da ciência, aparentemente correto, de se lidar com as diversas áreas do conhecimento, ao invés de formar as pessoas, faz com que indivíduos cada vez mais desinformados, sejam alçados a posições-chave na estrutura técnico-científica da nossa sociedade.

O “Especialismo” ao invés de formar indivíduos cada vez mais letrados e eruditos, só está gerando cada vez mais alienação científica e desinformação e , portanto, deformando os cientistas.

Essa simples constatação pode elucidar muito do que acontece, hoje em dia, onde a Ditadura Científica reina absoluta sobre todos os demais poderes.

Teoricamente, as democracias estariam alicerçadas nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, porem a Academia conseguiu elevar o seu poder acima de todos os demais poderes porque será ela quem, em ultima analise, irá opinar sobre todo e qualquer assunto, problema ou sobre o que é “certo ou errado”. A Academia detém esse poder e o exerce de forma ditatorial.

Tente veicular qualquer opinião ou ponto de vista divergente do pensamento oficial acadêmico e conhecerá esse poder ao qual me refiro. Charlatanismo será o adjetivo mais brando que irá receber dessa classe de indivíduos que, as vezes, acham que estão até mesmo acima de Deus.

Podemos traçar um paralelo entre o desenvolvimento do “Especialismo” com o desenvolvimento das mega empresas do ramos da Agricultura/Nutrição/Medicina. Afinal de contas, as mega empresas usam a Ditadura Científica a seu favor no momento em que contratam e mantém as pessoas que foram tituladas e que supostamente seriam os repositórios oficiais do saber, para validar as suas tecnologias e seus produtos, muitas vezes com consequências desastrosas para toda a humanidade, como no caso do Glifosato na Agricultura, dos alimentos transgênicos, no caso da mentirosa relação entre gorduras saturadas e doenças coronarianas, da falácia do leite como fonte de Cálcio, na Nutrição e Medicina e até mesmo a liberação de medicamentos com efeitos prejudiciais como o Vioxx, e outras 181 drogas retiradas do mercado, por terem efeitos reconhecidamente nocivos a saúde humana após terem sido aprovadas pelas agencias regulatórias ( 8 ). Todos eles recebem ou receberam o beneplácito da Ditadura Científica.

Ao manter o conhecimento em espaços estanques, conseguem de maneira eficaz fazer o que Cesar e Napoleão preconizavam, ou seja, dividir para governar, e com isso manter o absoluto controle sobre a sociedade atual.

Foi Hipócrates, o médico grego que seria o pai da Medicina moderna, quem primeiro afirmou ainda no século III A.C. que “todas as doenças começam no intestino”, muito antes de termos qualquer prova ou teoria que explicasse essa idéia.

Nessa época, nem mesmo a existência das bactérias era conhecida, até que Leeuwenhock, fez suas próprias observações e pode constatar a existência de organismos os quais ele chamou de animalculos, como anteriormente informado ( 2 ).

Esse foi realmente o pai da microbiologia, muito embora Pasteur, o mesmo que deu inicio a microbiofobia e que possibilitou a criação das diversas empresas que hoje exibem mais poder e força do que muitos países e que se situam acima desses mesmos países e governos, seja o mais reverenciado como sendo o criador da microbiologia.

Entretanto, foi o biólogo russo Élie Mechnikov, ganhador do Prêmio Nobel, quem primeiro traçou um vínculo direto entre a longevidade do homem e um equilíbrio saudável das bactérias intestinais, afirmando que a morte começa no cólon”.

         Com a recente constatação de que nós humanos seríamos “donos” do DNA de apenas 10% do do total de células existentes no nosso corpo ( 6 ) vem a tona a seguinte pergunta : Qual das atuais áreas do conhecimento humano teria o especialista responsável por esse terreno que diz respeito a 90% das células existentes no nosso corpo ?

Os Médicos ? Com certeza que não. Até hoje eles não estão nem um pouco interessados nessa seara. A maioria nem mesmo conhece esses números. Existem raríssimas e honrosas exceções como o Dr Perlmutter ( 1 ).

Os Microbiologistas ? Duvido muito. Esses sofrem de uma deformação cultural e científica, já anteriormente abordada, que os impedem de ver a convivência benéfica compartilhada desses organismos ( 2 ), e uma certa tendência “de berço “ a considerar toda bactéria como uma coisa maléfica e nociva.

Os Nutricionistas estariam entre os profissionais que mais se interessam por esse campo mas, de novo, falta-lhes o necessário cabedal no que diz respeito a inter-relação que existe entre o solo, as plantas, o microbioma intestinal e a saúde das pessoas e dos animais.

A grande e inegável verdade é que a origem da nossa saúde está, e estará sempre, ligada ao solo. Esse mesmo solo que o Agronegócio insiste em tratar como um suporte inerte que irá depender sempre de fertilizantes químicos para produzirem commodities e não alimentos para nutrir as pessoas e os animais.

Qual seria então o profissional responsável pelo nosso Microbioma Intestinal ?

Seriam necessários sólidos conhecimentos sobre o solo e a sua microbiologia. Afinal de contas esses microrganismos benéficos ao nosso organismo tem sua origem no solo e no meio ambiente, e na sua inter-relação com as plantas. Teria que ter a exata noção do que vem a ser Humus, a base da fertilidade perpétua e alimento da microflora do solo, sobre os minerais que o constituem e sobre a sua importância na nutricão das plantas, animais e seres humanos.

E finalmente, esse profissional,  deveria conhecer como as lavouras são conduzidas para que exibam a maior densidade nutricional possível pela utilização de ferramentas do sistema biológico de cultivo como Compost Tea, Extratos de Algas solúveis, Humatos solúveis, Hidrolizado de Peixe, Bactérias Benéficas específicas multiplicadas, e serem capaz de escolher as melhores frutas e hortaliças para serem consumidas com o auxílio da medição do Brix desses produtos.

O que nós precisamos, dada a importância da Microbiota Intestinal, é de um profissional que se dedique exclusivamente a cultivar esse “jardim ou horta” que existe dentro de nós. E para fazer isso terá que ter conhecimentos sólidos baseados em ciência real, e não em meias verdades, que transcendam a uma única formação acadêmica formal e totalmente desvinculada do atual conhecimento atrelado, cooptado e ditado pelas empresas supranacionais.

Seria interessante que tivessem igualmente conhecimento das dietas tradicionais dos diversos povos, principalmente daqueles cujas populações tenham uma maior porcentagem de indivíduos centenários e que sempre privilegiaram os alimentos fermentados como Leite e Queijos Fermentados e Manteiga (ou Ghee) oriundos de leite de gado à pasto, ácidos graxos saturados (como Óleo de Côco), ácidos graxos Monoinsaturados (Azeite de Oliva), Fontes naturais de EPA e DHA, vegetais, frutas e  grãos fermentados e que respeitem todos esses organismos não só como nossos ancestrais mais sim como uma força co-evolucionária que existe dentro de nós (10).

Portanto, é proposta a criação de uma nova disciplina que poderá fazer parte de cursos de Nutrição, Agronomia, Medicinas Veterinária e Humana e Zootecnia, que possibilite que esses profissionais tenham uma visão ampla da origem da saúde do solo, das plantas e dos animais e das pessoas e que essa formação lhes possibilitem fazer a união entre os diversos ramos do conhecimento humano, há muito tempo perdida pela compartimentalização do conhecimento imposta pela Ditadura do Conhecimento.

Não podemos nos esquecer, afinal de contas, que a Inteligência Artificial é um espectro que ameaça toda e qualquer profissão que tenha abrangência muito restrita como o Especialismo tem propiciado e, sendo assim, no futuro, quando mais eclética for a sua formação tanto melhor serão as suas chances de sucesso, em um mercado de trabalho , espera-se, cada vez mais restrito.

Aos computadores serão destinadas todas as funções passíveis de serem executadas por advogados, médicos, engenheiros e até mesmo nutricionistas. O computador médico Watson já provou ter mais acertos em diagnósticos do que médicos humanos, justamente porque foi alimentado com informações de todas as áreas da Medicina incluindo as medicinas alternativas como Ayurveda, Quiropraxia, Osteopatia, Homeopatia e outras.

 O futuro acena para o ecletismo e não para a especialização. Estejam preparados para a revolução da informática, que irá finalmente depor a Ditadura do Conhecimento.

Caso alguém ainda não saiba, essa revolução já começou.

 

José Luiz Moreira Garcia

Texto revisto em Janeiro de 2019

Anteriormente publicado no Blog

http://www.institutodeagriculturabiologica.or

 

 

      Referências

  1. Perlmutter, David., M.D. (2015) Amigos da Mente, Nutrientes e Bactérias que vão curar e proteger seu cérebro, Editora Paralela, 341 pgs.
  2. Garcia, J.L.M. ( 2017 ) Contaminação e Eugenia Microbiológica, Blog do I.A.B., https://institutodeagriculturabiologica.org/2017/07/12/contaminacao-e-eugenia-microbiologica/
  3. Garcia, J.L.M. ( 2015 ) O Papel da Agricultura na Nutrição Humana, Blog do I.A.B., https://institutodeagriculturabiologica.org/2015/05/06/o-papel-da-agricultura-na-nutricao-humana/
  4. Garcia, J.L.M. ( 2017) GLIFOSATO, Blog do I.A.B., https://institutodeagriculturabiologica.org/2017/01/19/glifosato/
  5. Garcia, J.L.M. ( 2017 ) Glifosato – Um caminho para as Doenças Modernas ? , Blog do I.A.B., https://institutodeagriculturabiologica.org/2017/03/24/792/
  6. Collen, Alanna ( 2015) 10% Human , Harper Collins Publisher, N.Y. , 325 pgs.
  7. Garcia, J.L.M. 2015) O Alto Custo de um Sistema Agricola Falido, Blog do I.A.B., https://institutodeagriculturabiologica.org/2015/05/05/o-alto-custo-de-um-sistema-agricola-falido/
  8. Wikipedia (2017) List of Withdrawn Drugs https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_withdrawn_drugs
  9. Manning, Richard (2004) Against the Grain, North Point Press, New York, 232 pgs.
  10. Katz, E.K. (2012) The Art of Fermentation, Chelsea Green Publishing, Vermont, 498 pgs.
  11. Huber, Don (2016) Comunicação Pessoal, ACRES USA Conference 2016, Omaha, NE, Dezembro de 2016.

 

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